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Para não dizer que não falei das flores

Mais que uma música, um hino que convoca a população contra a Ditadura Militar. Foi assim que muitos comentaristas da época relataram o efeito da música “Pra não dizer que não falei das flores” (ou “Caminhando”) na população que vivia uma intensa ditadura. Ela foi escrita e interpretada por Geraldo Vandré, e ficou em segundo lugar no Festival Internacional da Canção de 1968, sendo que há relatos que não venceu o festival a pedido do Regime Militar. Ela tinha em seus versos explicitamente “Há soldados armados, amados ou não/ Quase todos perdidos de armas na mão/ Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição / de morrer pela pátria e viver sem razão”. Tanto que foi censurada por anos, mas tornou-se o hino de resistência à perda de direitos civis.

Fica explícito que em época de estresse, a força inibe a sensatez, e a realidade reluz ao som do poder e não da informação e que a recuperação dos preceitos de uma convivência social saudável é o mínimo desejado por quem não tem o poder. Sendo que, mesmo que tardiamente, a realidade desejada pela massa e imposta pelo mercado irá prevalecer, devolvendo a coerência racional capitalista de um “bom convívio”, mas sempre antes deixando um rastro de perdas irreparáveis.

Estamos diante de um novo ciclo de estresse: certamente não o desejaríamos, mas seria infantil desdenhá-lo. Precisamos falar abertamente, para que quando discutirmos sobre ele, possamos analisar suas verdades e agir sobre os fatos, muito mais do que sobre conjecturas ou desejos conceituais. Particularmente, em grande monta, aprovo os discursos de muitos líderes frente à crise, demonstrando que ela (a crise) é para os concorrentes menos preparados, e que nós estamos fortes e prontos para tirar deste limão uma suculenta limonada. Outros dizem que já demitiram o “S” da palavra CRISE (CRI_E) e que fica proibido comentar internamente sobre cenários mais complexos. Sei que não é agradável ficar perto de pessoas ditas “pessimistas” (ou realistas) ou áreas que só nos trazem notícias desagradáveis, mas a história mostra que não seria totalmente aplicável essa orientação durante uma crise de credibilidade econômica e política como a que se instalou em nosso mercado. Passemos a prestar mais atenção a esses sinais febris internos.

Lembremo-nos que tentamos educar nossos filhos apresentando em primeira mão conceitos também não muito saudáveis ou confortáveis como: ética, competição, educação, política, riqueza, sexualidade etc. E mesmo nossos exemplos, algumas vezes, padecem por falta de credibilidade. A nossos filhos apresentamos não só o saboroso açúcar, mas também o sal, a pimenta, o pepino em conserva, legumes etc. São paladares distintos, como os momentos da vida, onde revisamos muitos de nossos princípios conforme dita um novo e forte cenário.

Assim, em época de estresse precisamos ter um canal aberto para que os primeiros sinais de estresse sejam filtrados de forma célere e técnica e então repassados aos nossos comandantes. Para que esses, com base em suas experiências e com o confrontar com as demais informações de que dispõem, montem rapidamente um cenário que eventualmente explicite algo novo, para o bem ou mal. Portanto, é oportuno que doravante tenhamos mais tato com as pessoas ou áreas que nos repassam informações “pessimistas”/negativas ou desenhem cenários desfavoráveis. Estamos cada vez maiores e muito menos ágeis que um pequeno barco a remo. Mesmo que mudemos o leme rapidamente, o efeito na trajetória somente será percebido após algumas milhas náuticas. E pode ser que o obstáculo que desejávamos desviar já tenha nos arranhado em demasia.

Reflexão Final: Geraldo Vandré diante de uma séria crise, usando da arma que dispunha, resumiu em uma música a mudança que desejava “esperar não é saber./ Quem sabe faz a hora,/ Não espera acontecer”. Se adotarmos apenas “Esperar não é saber” já seria um grande ensinamento a todos nós diante de qualquer crise. Então deveríamos analisar: Será que nossa instituição tem estrutura, processo e um canal eficaz para munir os líderes quanto aos percalços que já se avizinham?

Neste contexto, sugerimos que nossos líderes sejam coerentes, mantendo discursos otimistas sobre aqueles que pouco ou nada podem fazer para decidir os tempos e movimentos de uma estratégia vencedora diante do estresse, incluindo aqui funcionários iniciantes e sua massificada clientela. Mas ao mesmo tempo eles precisam ser humildes para aprender sempre, além de francos e claros para envolver seus mais seniores funcionários e grandes clientes parceiros, pois além de aliados, eles dominam informações estratégias úteis contra qualquer crise. Sigamos: “Caminhando…”.

Concordar é secundário. Refletir é urgente.

Ricardo Coelho – Consultoria e Treinamento com Foco no Cooperativismo de Crédito
www.ricardocoelhoconsult.com.br – 41-3569-0466 – Postado em 29/12/2015